Paulo Miklos extrapola o karaokê em ‘Coisas da vida’, álbum de ‘crooner’ com viés existencialista e moldura orquestral

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Paulo Miklos nada acrescenta ao hino sertanejo ‘Evidências’, mas canta muito bem músicas de Sérgio Sampaio (1947 – 1994) e do trio Sá, Rodrix & Guarabyra
Jorge Daux / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Coisas da vida
Artista: Paulo Miklos
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Quando Paulo Miklos lançou em 8 de maio single com regravação de “Evidências” (João Augusto e Paulo Sérgio Valle, 1989), com direito a clipe filmado em karaokê, uma pergunta se impôs de imediato: para que mais um registro fonográfico desse hino sertanejo amplificado nas vozes anasaladas de Chitãozinho & Xororó a partir de 1990?
Da fato, o cantor paulistano nada acrescenta a “Evidências”, música que parece sobrar entre as onze faixas do álbum “Coisas da vida”, lançado por Miklos ontem, sexta-feira, 22 de maio.
Contudo, o ex-integrante do grupo Titãs extrapola o karaokê neste primeiro disco de intérprete, inclusive pelo fato de o álbum ser valorizado pelos majestosos arranjos orquestrais criados com profusão de cordas e sopros por Otávio de Moraes, produtor musical – em parceria com Rafael Ramos – do álbum editado pela gravadora Deck.
Há uma ou outra música dispensável, caso de “Xibom bombom” (Rogério Gaspar e Wesley Rangel, 1999), sucesso do fugaz grupo baiano As Meninas na era de ouro da axé music com crítica social que rebobinava verso (“O de cima sobe e o de baixo desce”) escrito por Chico Science (1966 – 1997) cinco anos antes na letra de “A cidade” (1994). Mas cabe ressaltar que “Xibom bombom” está no álbum por ocupar lugar de honra na playlist afetiva da vida de Miklos por ter sido a música cantada pelo artista após acordar na cama de hospital em decorrência de gastroenterite.
Descontadas as escolhas pessoais e/ou mercadológicas, o álbum “Coisas da vida” se impõe pelo viés existencialista que alinhava boa parte do repertório, a começar pela música-título, balada lançada por Rita Lee (1947 – 2023) há 50 anos no terceiro dos quatro álbuns gravados pela artista com a banda Tutti Frutti, “Entradas e bandeiras” (1976).
Miklos abre o álbum com “Mestre Jonas” (Guttemberg Guarabyra, Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix, 1973), crítica ao conformismo dos que levam a vida sem risco e sem prazer. O cantor revive esse standard do rock rural com arranjo polifônico e uma pulsação frenética que remete à gravação original do tema pelo trio Sá, Rodrix & Guarabyra no álbum “Terra” (1973), mas sem entrar na seara do cover.
A crítica de “Mestre Jonas” se afina com o inconformismo do samba “Quero voltar pra Bahia” (Paulo Diniz e Odibar Moreira da Silva, 1970), cujo eu-lírico se revela insatisfeito com o Brasil e em fuga da solidão, com o desejo de retornar à Bahia, símbolo de porto seguro na letra desse samba que faz Miklos cair em suingue bissexto no canto do artista.
Entre o humanismo de “O sal da terra” (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1981) – canção que prega amor e união para gerar mundo mais pacífico e sustentável – e a reconstrução de “Saudosa maloca” (Adoniran Barbosa, 1955) em ambiente de câmara, escolha menos surpreendente para quem já viu Miklos encarnar Adoniran Barbosa (1910 – 1982) no cinema em filmes de 2015 e 2024, o crooner entra na brincadeira lúdica da concretista “Cachorro babucho” (Walter Franco, 1975).
Miklos também reaviva a frieza e a solidão cinzentas que pavimentam o concreto da cidade de São Paulo (SP) ao dar voz a “Não existe amor em SP” (2011), canção de alma soul que há 15 anos elevou o rapper Criolo além do segmento do hip hop. O maestro Otávio de Moraes enquadra “Não existe amor em SP” fora da moldura convencional dos arranjos de cordas, realçando a sensação de desajuste emocional dos versos de Criolo.
E por falar em inadequação, Miklos traz à tona um Sérgio Sampaio (1947 – 1994) menos óbvio, “Ninguém vive por mim”, música lançada pelo autor em single avulso de 1977.
“O pior dos temporais aduba os jardins”, contemporiza Miklos em verso de Sampaio, com facho de esperança que também espoca nos versos desiludidos, mas resilientes, do rock “O tempo não para” (Arnaldo Brandão e Cazuza, 1988), grande fecho do álbum “Coisas da vida” por aliar a pulsação das cordas a uma pegada roqueira que se afina com a história e de Paulo Miklos, crooner que vai bem além do karaokê neste primeiro enérgico disco de intérprete.
Capa do álbum ‘Coisas da vida’, de Paulo Miklos
Jorge Daux / Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento