Carolina Coelho compartilhou com o g1 a sua história depois de passar por dois abrigos. Ela foi atendida por um projeto da Corregedoria-Geral da Justiça do Tocantins que capacita e encaminha jovens dessas instituições para o primeiro emprego. Carolina Coelho junto com Ana Mara (de preto)
CEJA/Divulgação
A transição da adolescência para a vida adulta é cheia de indefinições e desafios. O primeiro emprego, o caminho profissional a seguir, como aprender a lidar com dinheiro. Para os jovens que vivem em abrigos de adoção, a virada dos 17 para os 18 anos ainda guarda mais um obstáculo: os próximos passos devem ser dados enquanto precisam deixar o lugar que chamavam de lar.
Carolina Coelho, de 19 anos, morou em um abrigo de Paraíso do Tocantins dos sete aos nove anos, passou um tempo com o pai após uma decisão da Justiça e retornou para uma instituição de acolhimento, em Divinópolis, aos 14 anos. Lá, ela ficou até completar 18 anos.
“Tive muito medo, pois era algo novo. Eu estava acostumada a sempre ter alguém me acompanhando em tudo. Pensava: ‘daqui tantos dias já vou fazer 18 anos e não sei o que vou fazer. Será que vou conseguir?’ Eram tantas dúvidas e medos que nem sei explicar ao certo”, disse a jovem.
Carolina trabalha e sonha em fazer faculdade de ciências contábeis
Carolina Coelho/Arquivo Pessoal
Carolina prefere não contar os motivos pelos quais não foi criada pela família de sangue, mas fala com orgulho dos laços que construiu dentro dos abrigos por onde passou.
“Jamais irei esquecer o que elas [pessoas do abrigo] fizeram por mim, cada conselho foi uma porta pra mim, eu via como uma oportunidade única na minha vida. Toda vez que eu tinha medo do futuro, elas me encorajaram a enfrentar.”
Depois que saiu do abrigo, Carolina passou por alguns empregos e trabalha hoje em uma papelaria na cidade de Divinópolis, onde mora com o namorado. Ela já faz planos para fazer faculdade de ciências contábeis.
O projeto
Pensando no futuro desses jovens, a Corregedoria-Geral da Justiça do Tocantins criou o certificado Amigo do Adolescente Acolhido. O objetivo é reconhecer pessoas e instituições que atuam na capacitação e dão oportunidade para os adolescentes recém-saídos dessas instituições.
“A preocupação com a desinstitucionalização desses jovens ao completar 18 anos já era uma coisa que nós vínhamos pensando. Quantos jovens estão ali aguardando uma família e não conseguem e, às vezes, eles vão para o mercado de trabalho ou para a sociedade sem terem sido preparados?”, explicou Ana Mara Mourão, secretária executiva da Comissão Estadual e Judiciária de Adoção do Tocantins (CEJA).
Atualmente existem nove adolescentes com idade entre 15 e 17 anos vivendo em abrigos do Tocantins e sete já participam de ações de capacitação para entrarem no mercado de trabalho.
“A gente percebe que, com o apoio do judiciário, tanto o serviço de acolhimento quanto os adolescentes se sentem mais seguros e mais animados para poder dar esse passo à frente”, comentou Ana Mara.
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Adoção no Tocantins
Adoção no Tocantins
Rondinelli Ribeiro/TJTO
Completar 18 anos em um abrigo é sinal de que, durante todo o período em que ficou no local, a criança, por algum motivo, não foi adotada. Um fator pesa muito nessa estatística: a baixa preferência das famílias por crianças mais velhas.
Nos últimos cinco anos, 249 crianças foram adotadas no Tocantins, de acordo com dados da CEJA. Desse total, nenhuma tinha mais de 10 anos. Veja a porcentagem por faixa etária:
Para tentar mudar essa realidade, foram criadas campanhas de incentivo à adoção de crianças mais velhas, com deficiência ou grupos de irmãos. Um exemplo é o aplicativo A.dot, ferramenta criada pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Ela conecta crianças disponíveis para adoção em todo Brasil com pretendentes habilitados no cadastro nacional.
O objetivo é mostrar crianças com perfis que são diferentes daqueles pretendidos pela maioria dos futuros pais e mães.
“É uma busca ativa, onde as comarcas podem colocar fotografias e vídeos dessas crianças ou adolescentes. Quando o pretendente habilitado acessar, ele pode se sensibilizar. Colocando em prática aquela teoria, o que os olhos não veem, o coração não sente. Então, a gente aposta naquilo que eles vão ver”, disse Ana Mara.
A Carolina Coelho, a jovem que compartilhou um pouco da história nessa reportagem, também tem um recado para pessoas interessadas em ser a família de alguma dessas crianças ou adolescentes que estão em abrigos.
“Se realmente a pessoa estiver disposta a pegar uma criança ou um adolescente, faça o máximo por ele, pois são pessoas carentes e que necessitam de amor e carinho. Então, se realmente quiser adotar, adote, mas cuide. Se faça presente, não adote só pra ter um status, mas para amar”, finaliza.
Se você tem interesse em adotar uma criança ou adolescente, a CEJA tem uma página com o passo a passo e outras informações importantes para o processo. Veja aqui.
Para acessar o A.dot basta buscar na loja de aplicativos do seu celular e baixar. Veja aqui mais informações.
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Fonte: G1 Tocantins


