Pagode dos anos 90 é redimensionado em série documental como movimento transformador do samba e da sociedade

0
7


Cantor revelado como vocalista do grupo Negritude Junior, Netinho de Paula dá ótimos depoimentos na série disponível no Globoplay
Reprodução / Vídeo
♫ CRÍTICA DE SÉRIE DOCUMENTAL
Título: Anos 90 – A explosão do pagode
Direção: Emílio Domingos e Rafael Boucinha
Roteiro: Raul Perez
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ “Quando o pagode começou a fazer muito sucesso nos anos 90, isso me ajudou a me entender como preto, a ter mais orgulho de ser preto. O pagode dos anos 90 vai muito além da música. É um movimento transformador da sociedade”, analisa Thiaguinho em depoimento ouvido quase ao fim do terceiro e último episódio da série documental “Anos 90 – A explosão do pagode”, já disponível na íntegra no Globoplay após ser exibida pela TV Globo nas três últimas quartas-feiras.
A fala de Thiaguinho, cantor projetado nacionalmente em 2003 como vocalista do grupo Exaltasamba, dá o tom reflexivo do documentário dirigido por Emílio Domingos e Rafael Boucinha. A série examina e redimensiona o pagode da década de 1990 como um movimento que transformou o samba e, como diz Thiaguinho, a própria sociedade.
Os protagonistas do gênero debatem a própria trajetória à luz da perspectiva do tempo. Ainda no terceiro episódio, “O show tem que continuar”, Netinho de Paula – entrevistado que se destaca pelas falas capazes de sintetizar fatos e momentos – se emociona ao ver uma apresentação do Negritude Junior, grupo que o revelou nos anos 1990, no programa “Domingão do Faustão” (TV Globo), e reflete sobre a própria trajetória com viés crítico.
“Que tempo bom! Como foi rápido… A minha saída do Negritude Junior para seguir carreira solo não era para ter acontecido. Era para a gente ter continuado juntos até hoje. Mas eles acharam que eu estava muito maior do que o grupo e fui convidado a me retirar”, lembra Netinho, ressaltando que todo o trabalho do Negritude Junior também passa pela questão identitária, inclusive pelo fato de o grupo ter absorvido códigos da black music norte-americana.
Chrigor admite na série que sofreu quando saiu do Exaltasamba em 2002 e foi substituído por Thiaguinho
Reprodução / Vídeo
De alta qualidade, os depoimentos valorizam o documentário e são a principal matéria-prima da série, cujo roteiro – assinado por Raul Perez – entremeia as falas dos cantores com imagens de arquivo (geralmente takes de aparições dos grupos em programas de auditório e de um ou outro show desses grupos em início de carreira) e com números musicais em que um artista revisita o repertório de outro.
Os depoimentos soam sinceros. Chrigor, por exemplo, assume que sentiu o baque quando saiu do Exaltasamba em 2002 e foi substituído por Thiaguinho, tendo transformado o ciúme inicial do colega em amizade. “Eu era um cara cheio de sucesso (de repente) sem sucesso algum. Para a minha vida, foi bom porque eu aprendi a viver, mas sofri. O sucesso não tem compromisso com ninguém”, reflete Chrigor.
O documentário se agiganta por colocar em pauta temas sociais que vieram juntamente com a explosão do pagode. Como ressaltam vários entrevistados, os grupos eram formados majoritariamente por jovens pretos egressos das periferias, geralmente da cidade de São Paulo (SP), epicentro do pagode, ainda que o grupo Só pra Contrariar seja mineiro de Uberlândia (MG). A explosão do pagode possibilitou a mobilidade social desses jovens e das respectivas famílias.
A supremacia masculina no início do movimento também entra em pauta. Se somente a cantora Eliana de Lima quebrava essa hegemonia nos anos 1990, Ludmilla atualmente arrasta multidões para os shows do projeto de pagode “Numanice”. A entrevista de Ludmilla contribui para entender as transformações do gênero ao longo de trinta e seis anos, tomando-se como ponto de partida o sucesso do pioneiro grupo Raça Negra em 1990.
Thiaguinho revela que a explosão do pagode nos anos 1990 o ajudou se entender como um homem negro
Reprodução / Vídeo
A propósito, a ausência de Luiz Carlos entre os entrevistados é sentida, mas não a ponto de tirar pontos da série documental. É que o Raça Negra preparou o terreno para a formação do movimento, cuja gênese é o mote do roteiro do primeiro episódio, “Da quebrada pro mundo”.
É quando, no episódio inicial, o Fundo de Quintal – grupo que revolucionou o modo de tocar samba na segunda metade dos anos 1970, mas que perdeu impulso no mercado justamente com a explosão do pagode da década de 1990 – é paradoxalmente apontado como a principal referência inicial para as estrelas do pagode 90. “O pagode anos 90 é a juventude dizendo: ‘agora vamos fazer o samba do nosso jeito’ ”, sintetiza Netinho de Paula.
E aqueles jovens fizeram, com a ajuda de nomes como Pelé Problema e Luizão (da equipe Chic Show), entre outros produtores e empresários que abriram as primeiras portas para os grupos que buscavam um lugar no mercado no rastro da explosão do Raça Negra.
A conexão do pagode 90 com o movimento black dos bailes paulistanos é um ponto de luz que se ilumina com o documentário de Emílio Domingos e Rafael Boucinha. Se a luz própria de Belo é enfatizada por vários depoentes, a força de Thiaguinho com “Tardezinha” – a roda de samba que acabou em arenas e estádios tamanho o gigantismo alcançado pelo projeto – também é ressaltada ao longo da série.
Ludmilla é retratada na série como uma artista que quebrou a hegemonia masculina do pagode com o projeto ‘Numanice’
Reprodução / Vídeo
Tema do segundo episódio, “O estouro”, a explosão propriamente dita do pagode é contada neste episódio em que fica nítida a ascensão social dos protagonistas do gênero. Com o dinheiro, vieram a ostentação e as rivalidades, lembradas por Netinho e Salgadinho (cantor projetado no grupo Katinguelê), entre outros entrevistados. Foi quando o sucesso e a riqueza fizeram por vezes a vida ser vivida em piloto automático, como recorda Wilson Prateado, produtor fundamental do pagode.
Só que o sucesso midiático passou – até voltar com força nos anos 2020, com o pagode 90 já com status de cult em movimento que gerou turnê milionárias como a que promoveu o reencontro de Belo com o Soweto em 2024 – e a série tem o mérito de cativar o espectador com reflexões sobre um momento que marcou época na história do samba e da sociedade.
Imperdível, a série “Anos 90 – A explosão do pagode” se nutre da nostalgia desse “tempo bom”, como qualifica Netinho, mas com foco na realidade, sem atravessar o samba ao refletir sobre a era iniciada com o didididiê do Raça Negra.
O carisma especial de Belo é ressaltado por vários entrevistados da série ‘Anos 90 – A explosão do pagode’, disponível no Globoplay
Reprodução / Vídeo

Fonte: G1 Entretenimento